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Crônica #59 | 2020: Reflexos de um passado recente

A eclosão de todos os medos



Estava estudando vídeos sobre demolições eficazes, e dentro deles o método de implosão de edificações. Uma implosão, diferentemente de explosão, acontece de dentro para fora, de forma controlada e, uma vez planejada ocorre uma destruição “construtiva”. A poeira é inevitável, mas o impacto é mínimo, mesmo sendo destruidora.


Nas cenas que eu via das implosões, fiquei a imaginar se seria semelhante a um ser implodindo de emoções numa crise. Mente perturbada, coração apertado, jorrando para fora e ao mesmo tempo para dentro, todos os seus abalos e perturbações.


Ano de 2020. De repente uma explosão de notícias, dúvidas, confusão, e uma realidade totalmente nova se apresenta a nível mundial. Quando a vida nos pressiona por todos os lados, trazendo no cenário o desconhecido, as emoções se alteram com tantas incertezas que podem se manifestar, com implosões cheias de medos. E esse desconhecido nos acometeu de forma drástica, violenta, foi cerceada a liberdade, e viramos prisioneiros nas nossas moradas. Não nos deu tempo para uma preparação, quanto menos a uma adaptação organizada; simplesmente chegou despejada em nossas vidas. Um silêncio assustador invadiu nossa alma, nossa mente gritando em questionamentos. Acuados e com medo, o nosso próximo virou uma principal ameaça, e assim nos isolamos perdendo todo nosso norte, sentindo essa silenciosa guerra invadir todos os espaços da nossa lucidez.


O desconhecido sempre traz consigo ansiedade e é capaz de gerar medo.

O medo, na verdade, não é de todo negativo. Ele serve como um sinalizador e nos alerta que algo perigoso ou desconhecido está chegando, e que vamos passar por esse algo novo e talvez perigoso. Então, o ideal do medo seria nos preparar e nos impulsionar para um enfrentamento saudável, mas de forma geral o que acontece é o contrário, ele se coloca na nossa frente e nos faz travar. Logicamente que há casos e casos, e todas as regras tem suas exceções, mas considerando genericamente, ficamos desconfortáveis. Então, lidar psicologicamente com a sensação do medo é algo que exige uma certa estrutura, pois ele tira nosso raciocínio e às vezes também nossa lucidez.

Não existe ser humano que não tenha medo de nada, todos são vítimas dele em menor ou maior grau; isso é uma ocorrência normal e natural. Ele surge das mais variadas coisas e situações, é impressionante o repertório que compõe esta desagradável perturbação. Os perigos temidos podem ser reais ou imaginários, e podem vir de todas as fontes possíveis imagináveis, afinal estamos falando de mente humana. Medos do escuro, de altura, de pessoas, de multidões, de animais, de sofrer, de morrer, de adoecer, de falar em público, da solidão, de amar, etc. Ele é inerente na nossa constituição, não há como simplesmente nos livrarmos dele; seu simples descarte, é dificilmente possível de forma absoluta. Então, é termos a coragem de mantermos contato com ele, conhecendo e encarando da forma mais saudável que pudermos, prestando atenção e não nos deixando paralisar. Casos mais difíceis devem ser tratados com a ajuda de profissionais; não deixar chegar na condição de se tornar um gigante opressor, é de vital importância.



Lembro-me de uma caminhada que fizemos, com um pequeno grupo de amigos na serra do Mar, divisa do Estado de São Paulo e Rio de Janeiro. Estávamos hospedados dentro de uma natureza belíssima e ficaríamos ali três dias. Então, o grupo muito animado resolveu fazer uma longa trilha, para aproveitar toda aquela beleza. Preparamos bem e partimos conforme havíamos combinado. O tempo indicava um período de estiagem, então, não nos preocupamos que pudesse ter alguma mudança do mesmo. Tudo caminhava bem, porém, não estávamos de fato preparados o suficiente, para o desconhecido. Um dos nossos amigos sofreu um acidente durante o percurso, que o deixou impossibilitado de continuar. Confiávamos no celular, nos mantimentos da mochila, mapas e trilhas, mas uma tempestade não esperada que se avistava ao longe chegou, e o instrumento que poderia nos direcionar se perdeu. Sem sinal do celular, sem GPS, sem bússola, ficamos praticamente isolados do mundo que nos cercava. Que território inóspito, estávamos diante de um despreparo, numa realidade desconhecida.


De forma semelhante, de repente, estávamos inseridos num território inóspito e numa realidade que se apresentava assustadora e desconhecida. Levávamos nas nossas mochilas da “Vida” mapas comuns, e não de soluções, um GPS que indicava casa/trabalho, trabalho/casa, com os mantimentos da normalidade se deteriorando.


Aquele sentimento de impotência, que nos marcou naquele dia fatídico, ficou registrado na minha memória. E veio brotar novamente, em alguns momentos do percurso desses dois últimos anos.

Hoje estamos em abril de 2022, ainda não totalmente certos de que tudo realmente passou.


Na floresta, praticamente sem direção e sem referência, o que poderíamos fazer então? Não adiantava ficar reclamando que o sapato estava apertado, ou lamentando o acidente ocorrido, ou que o frio se tornava insuportável.... Nem tínhamos direito de culpar o ferido ou reclamar do peso dele, que acabamos carregando no meio de tantas adversidades. Esperamos a chuva passar, e a noite se adentrando nos empurrava para uma busca de estratégia de solução. Confeccionamos uma maca com nossos blusões, resolvendo o problema de transporte, e o direcionamento que decidimos tomar foi rumo leste, de onde o sol nascia; ou seja, encontraríamos o litoral. Depois de algumas horas, encontramos uma casa onde fomos socorridos.


Quantos inúmeros familiares e queridos amigos, se feriram no meio desse espaço de tempo... Os mapas e direcionadores de sonhos foram corroídos, os mantimentos atacados, e principalmente perdemos a direção das coordenadas de rumos. Muitos ficaram parados no meio do nada, esperando resgate. Alguns saíram em busca de ajuda, outros sucumbiram.

Nossas vidas se mostraram frágeis, transparecendo quão delicados e pequenos somos.

Despedimos de familiares, parentes, amigos, conhecidos.

Muitas despedidas apenas em pensamentos e orações, mal se conseguiu enterrar seus mortos e ter uma elaboração do luto, triste e angustiante cenário se instalou. Tristeza, angústia, desamparo, solidão, perdas financeiras, depressão, agressividade, intolerância, perda de identidade, suicídio... sentido de vida e morte, imensurável o seu alastramento.


Muitos eram estranhos para a sua própria casa, ela precisou ser melhor reconhecida. Muitas delas se tornaram mais acolhedoras, porém muitas também ameaçadoras. Aprendemos a conhecer quem estava morando conosco. Muitos relacionamentos se solidificaram e muitos, no entanto, se romperam. Muitos se tornaram tóxicos, muitos abusos surgiram. Muitos choros, muitas angústias e muitos se entregaram a atos extremos, partindo... procurando quem sabe, uma solução milagrosa.


Nossas vidas e sonhos sofreram uma guinada violenta em todos os sentidos, era viver um dia de cada vez, mas a ansiedade muitas vezes esvaziava o momento do agora, frustrando-se num futuro mais ausente ainda.

A crise se manifestou de forma sistêmica, o individual e o coletivo se misturaram de tal maneira que se assemelhava a um grande nó, paralisando e anestesiando os humanos. Todos, por determinado tempo, estavam vivenciando a mesma adversidade, iguais nesse momento, portanto.


E são nesses momentos de crise que surgem, através de um esgotamento de patamar, as descobertas para a desconstrução de algo, projetando para uma outra e nova construção.

Não há outro caminho a não ser crescer, torna-se esse, o momento propício para tal.



Perdeu a crônica de semana passada? Leia o texto na íntegra clicando aqui: Crônica #58 | Rotas de Fuga



Se estamos aqui no dia de hoje é porque, apesar de tudo, sobrevivemos.


Creio que muitos, ao se sentirem impotentes perante a grandiosidade e poder da situação, aprenderam que as situações que fogem do seu controle não são vencidas. Portanto, aquela postura rígida de tudo querer controlar escoou-se pelo ralo.


A Lei da necessidade se mostrou de forma bem clara. Por alguma razão, a humanidade precisou passar pela situação, trazendo as experiências necessárias para um propósito maior. E todos nós, inseridos nessa humanidade, cada qual trouxe para fora suas questões pendentes, a serem entendidas e resolvidas.


É próprio do homem tudo o que acontece com ele.


Se nós aqui sobrevivemos, bem ou mal, podemos refletir agora reconhecendo os benefícios proporcionados.

Adquirimos novos aprendizados, novos valores, novos olhares para tudo o que nos cerca.

Aprendemos a olhar com mais simplicidade a vida. Que não necessitamos tanto para sermos felizes.

Desenvolvemos mais nossa inteligência abstrata. Sentimos o quão as coisas são transitórias.

Aprendemos e constatamos muita solidariedade, compaixão, fraternidade, fé. Aprendemos a olhar além da matéria. A felicidade se mostrou, sendo medida pela nossa qualidade de vida interior.

Construímos uma estrutura psicológica mais forte, nos tornando capazes de enfrentar as adversidades.

Saímos machucados sim, com as mãos calejadas de tanto cultivar, a nossa terra da esperança.


Podemos ainda estarmos questionando:

Foi tudo um castigo, uma punição? Foi merecido e podíamos ter recebido como uma colheita?

Por outro lado, como estão nossos níveis de consciência?

Será que a consciência da nossa sociedade ou humanidade, estão evoluídas ou continuam ainda primitivas?


Precisamos muito acreditar que, apesar de todas as catástrofes, houve muitas coisas boas e luminosas acontecendo paralelamente. Porque nosso mundo é dual, há tanta treva quanto luz. Existe uma mesma medida para ambos. Porém, como a mente humana é inclinada sempre a reagir, mais a fatos dramáticos e catastróficos, há uma tendência igual em relação ao entendimento das situações, e desequilíbrio emocional; tendendo a focar e enxergar mais o aspecto negativo. Então há uma programação quase que intrínseca, no quesito lidar com as adversidades, tudo se torna mais dramático devido a essa inclinação; sobrecarregando no sentir pavor e levando mais facilmente a um estado de desespero.


Na medida em que formos entendendo, que as adversidades precisam cumprir uma função em nossas vidas e, que irão embora somente após aprendermos de fato com elas; nossa realidade encontrará novos destinos.


Vejamos por uma perspectiva do alto. Uma árvore com a copa alta, recebe com maior intensidade os fortes ventos, granizos e chuvas torrenciais. Mas, por estar a uma altura mais elevada, é capaz de enxergar e deslumbrar o horizonte longínquo e contemplar o sol raiar primeiro; com uma visão ampliada, sem presenças de sombras ou obstáculos. Coloque-se num lugar mais alto para poder enxergar, com mais clareza, as questões apresentadas.


Na natureza tudo é sistêmico... nosso planeta se regenerou, com sua resiliência e sua homeostase, voltou a respirar. Suas águas clarearam, ficaram mais limpas. Nos retribuiu, com mais qualidade, o nosso ar. O aquecimento global estava gritante, então pensemos em como foi providencial uma parada, também global.


Aprendemos a ter um consumo mais consciente, a viver com menos. Saindo do supérfluo e priorizando o que realmente tem mais valor. Percebemos que sem saúde, nada podemos.

Adquirimos novos hábitos e mudamos muitos também.


Confira também esta crônica escrita pelo Otavio: Crônica #57 | Les Misérables



Desde um simples lavar de mãos e deixar os sapatos sujos fora de casa, a hábitos mais complexos.


Aprendemos a organizar nossa própria vida, antes talvez, controlada pelo sistema reinante.


Nossas casas foram ressignificadas, tornaram-se um verdadeiro lar e muitas assumiram um home office, trazendo um novo desenvolver de trabalho; mais qualidade de vida sem longos e difíceis deslocamentos físicos. Alimentação mais próxima do saudável, convivência maior com a família e os filhos, compartilhamento da companhia de amor dos nossos animaizinhos. Informações preciosas, a qualquer momento que se desejar, em plataformas on line. São tantas as coisas boas e positivas que deveríamos, como sobreviventes dessa guerra silenciosa, apenas agradecer. Atravessamos a ponte sobre um mar de caos borbulhante, e aqui estamos.


A existência humana é um permanente desafio. O processo de nossas vidas é longo e lento, depende muito das nossas escolhas, do quanto de lucidez se projeta nas nossas aspirações, e logicamente dos esforços empreendidos. Então, engrandecer nosso processo educando nossa mente, abraçando nossos deveres através da compreensão, escutando nossos sentimentos, nos disciplinando e.… diluindo ao longo do caminho as ansiedades, os conflitos gerados pela liberação dos medos, das frustrações e de tudo o que nos aflige.


As aflições do momento podem ser acalmadas, caso tenhamos fé em nós, e no futuro.

Nossa imaturidade psicológica vai sendo superada ao longo do caminho, mas pode avançar a passos largos, fortes e com poder, quando conseguirmos expressar gratidão por todas as pessoas, coisas e fatos que acontecem, aconteceram e que venham ainda acontecer nas nossas vidas.


A consciência grata é risonha e saudável, brilhando em alegria e paz no coração.

Psicologia da gratidão, grandiosa e poderosa gratidão!!



 




🌻🌻🌻🌻 NOTA 🌻🌻🌻🌻


Quando iniciamos este espaço com a colaboração do nosso cronista Otavio, não imaginávamos que se tornaria um lugar tão especial para tantas pessoas. Um lugar de conforto, de segurança e de afeto. Vimos nascer uma comunidade linda, que debate, conversa, que reflete junto e que principalmente, se acolhe.


Ontem tivemos nossos corações partidos ao saber da partida de uma das integrantes mais queridas dessa comunidade, a querida Sunflower, apelidada especialmente pelo querido Otavio. Nos conforta saber que, de alguma forma, este espaço serviu como um lugar seguro para ela, e que o carinho que nutrimos era mútuo.


Deixamos aqui nossa homenagem para a querida amiga Sunflower, e nossos sinceros sentimentos pela sua partida. Sentiremos falta de seus comentários toda semana, mas esperamos que de alguma forma agora ela esteja em paz, e que os corações de quem a amava sejam confortados.


Um sincero desejo de paz de toda a equipe neonews,


Descanse em paz, querida Sunflower. <3


🌻🌻🌻🌻🌻🌻🌻🌻🌻🌻🌻🌻🌻



 


Que tal baixar e compartilhar trechos dessa crônica com a galera?





 

Staff que trabalha para as Crônicas chegarem até você


• Cronista e filósofo neo

Otavio Yagima


Coautora

Maria Hisae


• Narração

Patrícia Ayumi


• Artes

ThIago Martins


• Edição

Leonardo Fernandes



 

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