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Crônica #49 | Síndrome de Frankenstein

Sobrevivendo nas múltiplas máscaras



Estava na companhia aconchegante dos meus gatos, num desses dias em que a chuva persistiu por muitos e muitos dias, deixando nosso céu cinzento por um bem prolongado tempo. Num misto de cenário sem muita luz solar, pensamentos mais densos e profundos fui arremessado a uns títulos de romances clássicos. Conde Drácula, Fantasma da Ópera, O Corcunda de Notre Dame, e vindo também Frankenstein, do romance de Mary W. Shelley (1797). Esse romance foi escrito por volta dos seus dezoito anos de idade, com o subtítulo de O Moderno Prometeu. Creio que a maioria deve conhecer sua história. Resumidamente, conta a criação de um monstro, pelo Dr. Victor, com partes de cadáveres humanos e dando vida a ele com eletricidade. Nessa época a eletricidade era ainda desconhecida, ele usou a força de um raio.


O Dr. Victor criou um monstro, como muitos pensam e viram, ou ele próprio seria um monstro por assumir o papel do nosso Criador, criando um ser que foi tão infeliz?! Ou por acreditar que somos apenas um amontoado de órgãos, fazendo da vida uma simples materialidade?





Se pensarmos em como somos criadores o tempo todo e em como estamos dando forma às nossas criações ou criaturas, seria de uma reflexão muito profunda. Sejam essas criações na vida física, de uma maneira mais real e palpável ou usando um tipo de transumanismo através das tecnologias e mais precisamente através das redes sociais, na internet. Digo redes sociais porque hoje são encaradas como um fato tão corriqueiro e de teor real, que muitos já perderam a noção da sua ilusória face perante o que tornou sua vida.


Pensando na criatura e no criador, metaforicamente, como internet e usuário de rede social, respectivamente. Nessa analogia o meu pensamento levitou para o insólito e as imagens vieram como um filme preto e branco transformado em cores vivas.


Vejamos.


Temos tantas coisas sendo criadas no mundo virtual que quase não acreditamos com as diversidades sendo expostas, isso a todo segundo. É um bombardeio gigantesco, afetando o dia a dia das pessoas de diferentes formas. Não só nossas vidas, mas o mundo está dominado pelos conteúdos expostos na internet. As exposições são tão abundantes, definindo e ditando tudo como um ideal de vida e objetivos a serem conquistados. Os chamados são muitos e as ofertas existem para todos os tipos de preferências. Cada qual escolhendo dentro do que permite o seu nível de maturidade.


Para serem inseridas ou aceitas na sociedade e agora muito mais no mundo virtual, as pessoas vestem-se com máscaras em todos os aspectos, seja a máscara social, seja a máscara da dor, seja uma máscara de preconceito e por aí vai tantas outras.



Perdeu a crônica de semana passada? Leia o texto na íntegra clicando aqui: Crônica | Download do vício

Pensando no que se refere de fato se esconder por detrás de uma máscara, existe o conceito de hipocrisia. Hipocrisia não como o conceito que usualmente conhecemos, da base cristã; mas numa base mais filosófica onde teremos na etimologia o significado como uma ação de desempenhar um papel, um teatro, pantomima, declamação.... Falsa aparência, máscara do ator.


A virtualidade proporciona muito mais o uso de máscaras.


Então nesse momento, ainda dentro de um afastamento social, onde o contato olho no olho não é tão possível; a vida virtual prevalece trazendo a possibilidade de mostrar a todos suas variadas faces. O seu negócio ou a sua vida pessoal, ou muitas causas importantes que engrandecem em atitudes a transformação desse mundo para um mundo bem melhor. Existem causas e mais causas, estudos, pesquisas, ciência, física, física quântica, entretenimento, viagens, espiritualidade, exoconsciência, consciência, meditações, e também muitos conteúdos de fake news, tragédias, enfim... impossível de se listar aqui pela extensa e infindável quantidade de assuntos. Dentro dessa imensa e vasta série de ofertas, cada um vai se identificando e seguindo os temas que mais lhe convém. Sem a internet não se conseguiria o alcance que hoje sabemos existir.


Então não se é de estranhar que os jovens são os mais atingidos ou favorecidos. Como já nasceram com todos esses emaranhados envolvendo suas vidas, não conseguem mais viver fora das redes, isso se tornou algo imerso, na qual a internet é o ar que necessita os seus pulmões e todo seu complexo corpo. Nas redes pode-se projetar todos os seus desejos, sejam eles pequenos ou grandes, simples ou complexos, modestos ou estranhos, mentiras ou verdades, sempre haverá um público que o aplaudirá com palminhas e coraçõezinhos; os emojis hoje dispensam comentários elaborados, simplificando a linguagem através de imagens. Os semelhantes se atraem resultando em somatória e às vezes os opostos também, pela lei da física, oferecendo uma neutralidade ou oportunidade com algum tipo de propósito.





A diminuição dos contatos físicos faz com que as amizades sejam superficiais, talvez hoje, já não se tenha mais amigos e sim seguidores ou simplesmente contatos. São tão superficiais que eles podem num simples toque, sem nenhum argumento, serem deletados ou bloqueados. Essa comunicação indireta faz do seu usuário o senhor controle total... será?!! Será que é possível manter todos sob total controle?


Seria de muito valor o preço a se pagar por essa dita considerada fama, dentro da virtualidade?

Uma fama baseada no número que se tem de seguidores, conseguidos de forma orgânica ou simplesmente comprados, pois tudo vale para mostrar e impressionar. Tudo se faz para receber likes, para ter os views e através de tudo desejar uma monetização. Então, a rede é também um grande local de negócios. O grande desejo na internet é sair do anonimato, buscando de todas as formas uma maior visibilidade.


Assume-se um papel de controle e liderança, onde se dita moda, estilos de vida, dicas de consumo e até condutas perante a vida... influencer ou influenciador, esse é o nome.


Existem muitos tipos de influencers nas redes, com tipos variados de conteúdos. Os mais famosos têm milhões de seguidores e mantém um público fiel e interessado em suas vidas. Assim como existem os pequenos, que lutam para aumentar e conquistar mais e mais seguidores. Sem falar dos aceleradores... estes trazem as tragédias, os desastres, assassinatos e todas as notícias chocantes; impulsionando o recebimento de likes. Violência em textos provocativos e de enfrentamentos e uso constante de inteligência irônica. Os temas quentes com os views ganham força da discussão e na polarização dos sentimentos ganham-se as curtidas.


Hoje temos também os outsiders, diferente do influencer, eles a tudo criticam. Os haters dentro dos seus sentimentos específicos e destrutivos, para ele só existe a sua verdade. Todos atuando intensamente dentro da internet, cada qual a sua maneira e idealização. Todos buscando sua realização ou monetização e trazendo à tona o sentir do seu imaginado prestígio.


Esse suposto domínio sobre as pessoas seria para satisfazer o que? Os desejos, a vaidade, o orgulho? O que mais seria tão importante para o ego?


Para se atingir um número cada vez maior de seguidores, onde se tem praticamente um tribunal sem fim, haverá de se empenhar em produzir cada vez mais, de forma permanente e sem repouso. Ter que se mostrar sempre feliz, mostrar ambientes bonitos, famílias unidas, excesso de positividade, tirar fotos a todo momento, mostrar o que come, o que faz, o que veste e assim consumindo todos os instantes da sua vida e principalmente da sua mente. Sempre, a todo momento, fotografando e filmando todos os seus passos.


Como é possível mostrar tudo em perfeição se a própria vida geralmente está num outro nível? Ou será que a vida pode realmente ser perfeita em todos os momentos, cheias de felicidade, sem nenhum contratempo nunca? A necessidade de se usar máscara para agradar e conquistar a todos, por exemplo, ou ser sempre perfeito pode levar a um esgotamento, entrando inclusive em colapso psíquico; o tão falado e discutido atualmente, síndrome de burnout.


Mesmo com tanta tecnologia a nosso dispor, que deveria facilitar e nos proporcionar mais qualidade nas nossas vidas, vemos as pessoas mais cansadas, sem energia, sem disposição e na inércia.


Num determinado momento do romance o monstro diz “Você é meu criador Dr. Victor, mas eu sou o seu senhor”. Aqui temos um profundo significado e uma profunda lição também. O monstro provoca o criador e o submete às ameaças aplicando pavor e medo.



Leia também: Crônica | A garotinha de patins



Ouvimos falar de muitos distúrbios, existe um menos falado e talvez até desconhecido, a síndrome de Frankenstein. Ela existe quando uma pessoa, ou o criador, tem medo que o que criou se volte contra ela. Serve bem para os dias atuais, nesse mundo virtual ou mesmo real, em que muitos se relacionam de maneira às vezes sombrias. Se a construção foi feita com base em mentiras ou outros meios não dignos, um dia a sua criação poderá ser sua sentença final. Como não considerar e se rejeitar como uma certa monstruosidade?

Imaginem uma pessoa por detrás de suas máscaras, se mostrando como uma pessoa de caráter e princípios; dentro da sua ambígua personalidade tem forte a sua hipocrisia, falsidade, fingimento, dissimulação e sonsice. Se camuflando num suposto anonimato e acreditando estar se livrando de responsabilidades. O que será dessa criatura? Será que ela realmente se livra das responsabilidades de seus atos? Será que realmente ela conseguirá sair impune achando que está escondida? E Deus, na sua onisciência não está vendo seus atos? Numa sociedade que não tem mais religiosidade como guia, resta a máscara. Porém, para quem não quiser usar a abordagem como Deus, podemos perguntar se a energia eletromagnética que ela emite com todos os seus pensamentos, sentimentos, emoções, intenções e atos, ficará simplesmente perdida. Ou será essa energia que ela emitiu através de todas as suas atitudes, atraída de volta a ela, conforme ditam as leis do eletromagnetismo? Conseguirá fugir e sair impune da Lei Maior? Jamais!


Nós seres humanos, somos humanos e assim devemos evoluir. Devemos sempre nos perguntar: Quem realmente somos? O que pensamos de nós mesmos? O que queremos para nós e também para o mundo que nos cerca? Qual papel estamos assumindo? Somos capazes de criar com responsabilidade e não passarmos nossas falhas para nossas criações? O que estamos construindo, é saudável? Se for, ótimo, continuemos; mas se não for, acionemos o botão de emergência, repensemos os conceitos e alteremos a rota para o caminho correto.


Toda essa rede gigantesca e maravilhosa de internet a nosso favor, e nós como criadores... pensemos em como estamos utilizando. Não façamos coisas que possamos perder o controle. Tudo que for contrário à Lei do Universo, um dia está fadado a se entregar, será onde o criador resgatará pelas suas criações, pelas suas criaturas, sejam elas construtivas ou destrutivas. Temos o poder de escolha e inteligência para isso.


Podemos viver fora da bolha da hipocrisia, seja hipocrisia no sentido base cristã ou no sentido mais filosófico. Seja essa vida dentro ou fora da internet, não importa.

Não queiramos um dia deparar nossa vida com a síndrome de Frankenstein.





Com toda essa gigantesca onda de informações, cheias de infinitas rotas, com chamadas alucinantes para tantos emocionantes destinos. São tantos movimentos que só de pensar na presença de uma monotonia nos assustamos. Fazemos de tudo então para nos manter dentro da roda movimentada, onde o seu movimento e seu colorido embelezam as ofertas, nos mantendo entretidos.


No romance, a noiva do Dr. Victor é assassinada pela criatura que ele criou, mas mesmo assim os dois não conseguem se desligar um do outro. A impossibilidade de afastamento ocorre porque estão ligados pelas mesmas características.


Quem criou o que, afinal? Vem a pergunta novamente, quem é o monstro, o seu criador ou o que foi criado? O homem criou a internet ou a internet criou o homem?


Dr. Victor então, junto com a sua criatura, se isola no Polo Norte. À beira da sua morte ele se surpreende vendo o monstro que criou chorando. Numa declaração profundamente filosófica, ele resolve por si abandoná-lo sozinho num barco, no meio de um extremo e intenso frio.

A criatura parte, desaparecendo e deixando o seu criador.


Assim é rompido o elo entre eles.





Quando o limite chega ao topo do esgotamento, quando se é retirada a máscara do criador, o seu cancelamento se dará na rede social, será deletado impiedosamente. Isso acontece a todo momento dentro dessa vasta rede de internet. É bloqueado, deletado e entra numa hibernação sem fim, numa gélida e imparcial sentença. Esse rompimento com a internet é como aconteceu com o Dr. Victor e sua criatura. Apesar do vínculo de absoluta cumplicidade, caminhou no final para a morte do criador e desaparecimento da criatura.


E agora, sozinho, sem rumo, ambiente gelado e hostil; redescobrir a felicidade na monotonia da vida... desafio robusto, porém possível. Com consciência, aceitação e coragem.


Sem likes, sem views, sem curtidas, sem emoticons. Tirar fotos para si e não mais preocupado em postagens. Fotos naturais, sem filtros, sem photoshop, apenas fotos, na sua simplicidade de mostrar e ser o que é.


Pela declaração final da criatura para seu criador, o Dr. Victor, nota-se que a criatura teve o perfil de fazer constantes reflexões. Perguntou ao seu criador porque a criou, para ficar sozinha na vida, para ser miserável?


No seu longo discurso ela se coloca como uma criação de um novo lúcifer, encarnação das pessoas que fizeram mal, perseguida e rejeitada com tochas de fogo. Porém, a criatura corrige sua afirmação dizendo que o Lúcifer teve um Criador com amigos, seguidores e admiradores e ela, a criatura monstro não, que viveu e está absolutamente sozinha, sem amigo, sem seguidor e sem admirador. No desmedido do seu vazio lamenta profundamente o isolamento eterno.


Se trouxéssemos esse romance para os dias de hoje, será que Frankenstein iria querer ter seguidores, likes, curtidas e muitas inscrições na sua rede? Ou escolheria ter um grupo, mesmo que fosse difícil sua aceitação por causa da sua imagem? Será que, o que o monstro queria era apenas ser aceito e amado, simplesmente?


Hoje, muitos não conseguem ver sentido de se estar vivo, são muitas as angústias da vida moderna.


É muita ciência e pouca filosofia. Porém, é possível redirecionar os desejos para outros pontos, não essencialmente para as redes sociais. Encontros reais, um bate papo num barzinho, numa caminhada ou numa corrida juntos. Numa simples ligação dizer “oi meu amigo, como está? ”. Sem necessidade de postar e mostrar fotos criadas com hashtags. Não precisando avaliar se o encontro entre amigos elevou os likes ou seguidores. Basta um abraço. Basta um olhar.


Nesse instante já não importa cenas de humor criados, nem frases longas ou curtas, nem exposição de material. E não precisa desgastar os neurônios para compor um relatório, verificando se os amigos que estão ali vão aprovar ou rejeitar. É a presença da energia da amizade, do carinho, do respeito, da humildade de ser o que é, simplesmente. Apenas aquele momento, vivido e compartilhado juntos expressa o eterno.


A internet é algo tão grandioso e tão revolucionário como elemento de expansão, que nossas vidas são agraciadas a todo momento através da sua disposição. Ela é a regente da grande orquestra que nos envolve e nos liberta. Ela nos proporciona aproximação, nos proporciona saber, ela salva vidas, ela resgata vidas. Então jamais desprezemos essa imprescindível tecnologia, essa grande marca do nosso tempo.


Saibamos usar da maneira correta, dentro de um limite saudável, dentro de um equilíbrio que nos mantenha cientes de que somos humanos e não robôs. Que temos sentimentos e precisamos nos enxergar através de nossos olhos e não apenas pelas telas. De não romper o ponto em que ela possa se tornar nossa inimiga, invadindo e nos deletando do seu mundo.


Necessitamos dela como aliada, como uma enorme porta, que ao se abrir nos presenteie com o leque de todas as possibilidades. Que ao se abrir nos conecte com o nosso melhor, nos ligando em companhias reais, com trocas de olhares, abraços, sorrisos e risadas; no compartilhamento da alegria de estarmos juntos, unidos inclusive, por essa imensa rede da internet.




Que tal baixar e compartilhar trechos dessa crônica com a galera!




 
Staff que trabalha para as Crônicas chegarem até você

• Cronista e filósofo neo

Otavio Yagima


Coautora

Maria Hisae


• Narração

Patrícia Ayumi


• Artes

Thiago Martins


• Edição

João Pedro Santos

 


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