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Crônica | Free




A cidade de São Paulo desengata a marcha. O destino segue até o momento em que a inércia acabe. Transeuntes com semblantes de poucos sorrisos transitam ora passeando com seu cão ora levando uma escada para alguma manutenção. O som das sirenes de ambulâncias e polícia tornam se raros nessa selva de pedra, nesta fase de pandemia. Mais um dia se perde nessa magnífica existência da Terra.


Mas hoje aconteceu algo sublime comigo apesar desses momentos sombrios.


Por imposição da lei fui buscar uma refeição pronta e no caminho para meu trabalho uma pequena garota me interrompe. Ela pede algo para comer. Do outro lado da rua vejo uma senhora com um filho de colo sentada no degrau de uma loja fechada. Eu me abaixo e pergunto o que quer comer. Pediu um salgadinho para si e outra para sua mãe. Voltei ao restaurante e pedi para preparar os salgadinhos junto com uma paçoca, dois sucos de laranja em copo descartável e outro prato pronto. Como tinha muita coisa para garotinha carregar eu a acompanhei até aquela senhora.


A garotinha se senta ao lado da mãe. Passa os salgados e lhe ofereço a “quentinha” extra. Ela com lágrimas nos olhos me agradece. Nesse momento eu decido me sentar ao lado da garotinha e o meu mundo começou aflorar. Continha olhos negros e grandes, cabelos despenteados, esmalte nas unhas já desgastadas, mãos limpas, pois a mãe lava com água trazidas numa garrafa pet. Carinhosamente ele enrola no papel guardanapo no salgadinho.


- “Como você se chama minha linda?”

- “Maria José” responde a mãe.

- “Quantos anos?”, pergunto para Maria José

Levanta a mão com 5 dedos.


5 anos de idade. Maria José. Eu resolvei então almoçarmos juntos na calçada. Ela me diz que fica com a sua mãe e irmãozinho. Não pede dinheiro porque é perigoso com os carros. Sua brincadeira é contar as latas recolhidas, pegar o anel de lacre. Sua mãe segura copo de suco e Maria toma com cuidado. Ela oferece para o seu irmão menor. Abre uma mochila e guarda o doce. Embrulha o salgado que não consegue comer por inteiro e guarda.


Maria José fica cabisbaixa, pega um pedaço de gesso que está caído ao seu lado começa a desenhar no cimento frio da calçada. Riscos que vem e vão, traços diagonais, círculos e semicírculos. Já nesse momento, eu não conseguia almoçar pela angústia.


- “O que são esses desenhos?” pergunto.

- “Esse aqui, tio, é um jardim com gangorra e balanço, esse outro é um passarinho, e são flores também” – Maria José responde prontamente.

Depois de alguns minutos ela diz: - “Meu pai tá no céu”.


Precisei respirar profundamente. O meu diálogo é agora crucificado por esse momento. Momentos de silêncio me impõe de forma fulminante e as reflexões me dominam sem poder se quer tomar quaisquer atitudes... Quantas Marias existem no mundo em situações diferentes. Eu entro em conflito daquela situação da Maria José que não é por acaso. A minha discordância é relutante pois aprendemos que o HOMEM faz o MEIO.


Maria José se despede. Segura na mão da sua mãe e com aquela pequena mochila se vão.... Meu Deus. Que caminhos tomarão? Que futuro reserva para Maria José.


Ficção ou não já se fala em construir um elevador para os céus. E se eu pudesse levar algo, seriam dois pedidos aliás duas perguntas para o Criador:

- “Para que tudo isso? Merecimento ou consequência? “

Escondemos atrás do “Livre arbítrio” como se pudéssemos culpá-lo. Medo, receio, falta de coragem.


- “A linha da vida de cada um já está escrita?”.


E a Maria José já entraria nesse elevador para encontrar seu pai.


Recebemos a Centelha.

Todos na mesma quantidade e qualidade. Meu Deus...

A minha respiração se acalma.

A minha mente se tranquiliza...

O complexo da relatividade.

Da visão.

Vida.

Fé....

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