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Crônica | A criança




Numa incrível viagem a Minas Gerais, entre belíssimas montanhas seguimos caminho explorando as delícias de uma pequena cidade próxima da divisa do Estado de São Paulo. Saímos de uma autovia movimentada para uma rodovia simples. Passamos por um longo trecho não pavimentado e nos deparamos com paisagens esplendorosas. Muitas lindas e exuberantes araucárias, lagos, animais, capelinha, pequenas e humildes casas integrando a paisagem.


Estamos na primavera, então muitas flores coloridas, margaridas no campo, azaleias brancas, rosas, vermelhas, extremamente radiantes. Nossos olhos e corações já preenchidos por tantas belezas, já preenchidos por tanto verde, ar puro alegrando nossos pulmões, cheiro de mato invadindo nossos corpos... canto dos variados passarinhos coloridos, uns amarelos, outros azuis, maritacas verdinhas e ainda um belo e grande Jacu... pássaros voando e nos dando uma imagem de paraíso... que máximo de plenitude é sentir em nosso ser esse abraço da Natureza.


Na pequena cidade com muitos chalés, pousadas e hotéis, apenas uma rua principal representa praticamente todo o comércio, restaurantes com comidas típicas da região, fondue, lojinhas de artesanatos e deliciosos chocolates.


Num pedacinho de jardim em frente a uma loja, entre flores e artesanatos expostos vejo uma garotinha sentada, solitária, num banco de madeira rústica. Eu fiquei tocado com aquela imagem, pois não a vi acompanhada por algum adulto. Eu me aproximei e observei que estava com um caderno no colo e com um lápis tentava seguir os contornos de algumas letras na folha. Perguntei o seu nome e idade e porque estava sozinha. Ela imediatamente abanou a mão e com sorriso me disse o seu nome e idade. Seis anos. No seu caderno eu vi que exercitava caligrafia. Disse-me que era sua lição de casa para aquele final de semana.



Entre uma conversa e outra perguntei onde seus pais estavam e ela me responde apontando para uma bonita e aconchegante cafeteria, posicionada do outro lado da rua.

- “Minha mãe tá lá.”


Eu olhei para a cafeteria e vi sua mãe trabalhando, atarefada arrumando as mesas, xícaras e pensei que, por muitos momentos ela mal conseguia concentrar sua atenção na filha desse lado da rua. Num pequeno intervalo abanei a mão para sua mãe e da mesma forma ela me cumprimentou e deu um sorriso. Nesse momento a minha mente inicia com um conjunto de pensamentos provocando colisões de referências...


A garotinha tem como ídolo a sua mãe. Observando percebe-se que é trabalhadora e aparenta estar comprometida com a vida que recebeu do Criador. Parece cumprir sua missão com carinho, pois independente da sua profissão e lugar onde mora, ela luta buscando o melhor para si e para sua filha; também nota-se sua dedicação no trabalho e atendimento aos clientes.


Penso que na ânsia de realizar sonhos para si e sua filha buscando um futuro melhor, se esforça trabalhando nos finais de semanas e feriados; atendendo por outro lado o sonho de busca de tranquilidade de um grande número de turistas. Fico imaginando o que a fez morar nessa pequenina cidade e constituir ali uma família. O que o futuro reserva para essa garotinha? Ela não tem noção do tempo, o passado não tem “função” e o sentido do futuro inexiste. Simplesmente o momento do agora é real para ela.


- “O que você quer ser quando ficar mocinha?”. Indaguei.

- “Quero ser que nem minha mãe...”. assim ela respondeu firmemente.


Meu Deus!! Que lindo pensamento! Vive imersa dentro da sua apaixonante inocência. Ela acredita no que vê e traz à tona o valor da dedicação da sua mãe. A sua referência é o seu mundo presente. Apertei os lábios, entre um sorriso e uma lágrima a minha vontade era dizer... “Garotinha, o mundo lá fora é cruel! Não deixe que a crueldade domine essa pureza! Curta esse momento minha querida, curta! Viva intensamente essa felicidade. Não se importe com os outros e viva cada segundo esse amor que tem por sua mãe.”... Mas eu não podia dizer isso.... Porque aquele momento era o momento do estado da criança numa criança. Precisei respeitá-la no ciclo de vida dela, na esfera que ela vive.



A minha reflexão silenciosa foi interrompida por uma frase dela.

- “Tomei vacina”.

- “Que bom. A vacina protege você de muitas coisas”, assim respondi.


Porém minha mente é invadida por pensamentos, como que querendo preservar a menina e seu mundo, lembrando que a vacina que ela tomou não imunizava dos pensamentos ruins , nem mesmo das decepções, nem das imposições da sociedade, nem do que é certo e errado..... Mas que existem outros tipos de vacinas da vida, e que tomamos conforme a sabedoria avança e que a busca da vacina final jamais encontraríamos nessa dimensão...


- “Onde foi que você tomou a vacina?” Indaguei.

- “Perto da minha escola!”

- “E onde fica sua escola?” retruquei.

- “Uai, perto de onde tomei a vacina!”


Eu me calei diante da resposta. Uma risada interior gigantesca invadiu todo o meu ser, não me aguentei. Nunca tinha recebido uma resposta assim, deste nível. Me senti tão alegremente feliz com tanta inocência no argumento que me rendi. Um sentimento que há muito não sentia preencheu toda minha alma. Que pureza!! Que simplicidade!! Não precisamos muito para sermos felizes. Essa viagem tornou-se inesquecível por esse encontro valioso.

Podemos concluir também que aprendi com uma garotinha de seis aninhos que para obter uma resposta inteligente era preciso fazer pergunta inteligente... Ri de mim e refleti;


Eu comparo a vida como bolinhas de sabão, formadas e soltas numa brincadeira de criança.

Eu me imagino dentro dessa bolinha: quando nos acomodamos com todas as situações da vida, ela é levada pelo vento sem rumo, a qualquer lugar, e ficamos assim apenas vendo as outras em busca de lugares almejados. Em cada bolinha uma vida. O peso da inércia e da ignorância faz com que essa esfera fique rente ao chão, sempre à mercê de espinhos e expondo a fragilidade para um rompimento desta camada. Ao elevarmos nossos atos e pensamentos, consequentemente nossos conhecimentos se elevam e tudo que assimilamos nos deixam mais leves. E quanto mais leves e sutilizados, mais próximos do Absoluto estaremos. Na leveza da nossa alma nosso corpo levita e o entendimento das causas humanas passam a ser compreensíveis. Na ausência do Egocentrismo, já não precisamos dessa bolha que antes nos protegia até atingir, talvez o limite dos céus.


A existência da bolinha de sabão não é eterna, é efêmera. Chega um momento em que essa bolha é rompida, seja por falta de resistência ou por situações. Está preparado quando isso acontecer?


A bolha, numa perfeita esfera que reflete as cores do arco íris, é concedida para todos nós. Lá dentro, uma vida. Cabe a cada um de nós elevarmos para os céus a função de Homem. Ao reconhecermos isso, sentiremos uma fortaleza e o ato de humildade já será pertinente.


Precisamos seguir sempre com o crescimento da maturidade; porém, jamais esquecer ou ignorar a criança que existe dentro de cada um de nós. Acolha-a sempre, e a vivifique, seja puro, seja feliz!!!


“Quem é o maior no Reino dos Céus? Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus. Portanto, quem se tornar humilde como essa criança, esse é o maior no Reino dos Céus.”


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